Palavra do Pároco

Maio de 2017

Salvem o trabalhador!

 

Santo Afonso, nosso padroeiro, trabalhou desde a sua juventude e, mesmo com a idade avançada, ainda se dedicava ao cuidado do povo de Deus. Durante anos, o Brasil foi palco de situações absurdas em relação ao trabalho, mas, no decorrer da história, os brasileiros foram reagindo na conquista de seus direitos, a ponto de termos hoje uma legislação que, apesar de tudo, busca defender o trabalhador. Essa conquista não pode ser perdida, pois cabe ao Estado garantir a seu povo uma aposentadoria digna, pois é justamente o povo que, com seus impostos e contribuições, ao longo de décadas, sustentou o país e o fez progredir.

No dia primeiro de maio, em vários países do mundo, houve manifestações acerca do trabalho. São numerosos desempregados pelo mundo, reclamando o direito de ter uma ocupação que lhes garanta condições de sobreviver e sustentar a família, que os realize como seres humanos e, ao mesmo tempo, os façam contribuir com a construção da sociedade. Algumas vozes eclodiram, denunciando, mais uma vez, a existência de trabalho escravo no mundo moderno, coisa absurda para todos os tempos, quanto mais para o século XXI.

No início do século XVIII, em Nápoles, na Itália, antes dos 20 anos de idade, Afonso de Ligório já exercia a profissão de advogado, buscando em tudo a retidão moral por meio do exercício da justiça. A nossa pátria, Brasil, tal qual um país do Primeiro Mundo, exige que todas as crianças estejam matriculadas nas escolas, tendo uma ótima formação para que possam também ocupar uma profissão na sociedade – como Santo Afonso sonhara, trezentos anos atrás.

Infelizmente, porém, constata-se, na prática, uma realidade absurda país afora: a existência de crianças que, em vez de estudar, tem de ajudar no sustento à família, desempenhando as mais variadas funções, entre as quais a mais triste é a prática da prostituição. Aqui na nossa cidade, por sua vez, há tantas crianças − “os prediletos do Reino”, como diz Jesus − mendigando nos sinais ou então servindo de “aviãozinho” para o tráfico. Gente, criança não pode trabalhar, trabalho é coisa de adulto.

Nesse sentido, é estranho (e cruel) ver adultos legislando contra aqueles que trabalharam a vida toda para dar um futuro melhor a seus filhos. Além de ser um desserviço à sociedade, é, para nós cristãos, uma afronta ao evangelho ver as crianças na precariedade, os adolescentes sem uma escola que lhes dê formação básica para a faculdade ou um curso técnico. Triste, também, é ver um jovem ter de “fazer bicos” dia e noite para poder pagar uma universidade particular, por não ter tido uma base formativa suficiente que lhe garantisse a entrada numa universidade pública (sobre as quais, aliás, hoje em dia nem é bom falar...). Lamentável é constatar que, depois de formado, o profissional corre o risco de ver o seu trabalho desvalorizado e os seus direitos, tragados por um novo sistema que desumaniza as relações de trabalho.

Santo Afonso, depois de uma vida de trabalhos dedicados ao fórum de Nápoles, à Congregação Redentorista, à Igreja e principalmente ao povo de Deus, pode desfrutar de sua “aposentadoria” com a dignidade própria que todo ser humano merece, pelo simples fato de ser filho(a) de Deus e colaborar com o progresso da humanidade.

Pe. Luis Carlos de Carvalho Silva, CSsR